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Os veranistas de Porto Alegre e a história da SAPA

Não   saberia dizer exatamente como tudo começou. Sei, porque a coleção prova, que em muitas colunas assinadas em Zero Hora escrevi o quanto Porto Alegre ficava mais agradável no verão. Aquilo de trânsito sempre livre, de estacionar com facilidade, jamais enfrentar fila em restaurante, ir ao cinema e poder se esparramar na poltrona, uma fileira inteirinha só para a gente…
Lembro que um peso-pesado, Verissimo ou Scliar, não sei ao certo, comentou o caso espirituosamente. E não tardou para que se fizesse um coquetel no Chalé da Praça 15 e dali surgisse a Sociedade Amigos de Porto Alegre (SAPA), irônica provocação às sociedades amigos disso e daquilo que pululavam pelo litoral. Adesões em massa, diretoria eleita, a informal, quase anárquica sociedade ganhou corpo.
Dez anos depois, quatro horas de uma tarde calorenta de janeiro, programa do Ruy, na Gaúcha.
Em torno da mesa encontro Tânia Carvalho, Zé Antônio Pinheiro Machado e o publicitário Jesus Iglesias, que era o  presidente da SAPA. Por quase uma hora somos todos unânimes nos elogios a Porto Alegre no verão. E nas discretas farpas endereçadas aos que gostam de água fria, do mar marrom, do trânsito congestionado, do Nordestão carregando barracas e pessoas com menos de 60 quilos na beira da praia etc.
O Jesus mais ouvia do que participava, parecia constrangido. Até ser desmascarado – ele, então com criança pequena em casa, fora visto em Capão Novo. Num ato insano, arranca de sua heroica leva-tudo um conjunto de dois clipes, três bolachas de chope com pouco uso, um lápis número dois e um adesivo da SAPA, que constituíam o patrimônio da entidade. Joga tudo em minha direção e me designa novo presidente.
Mas não tinha mais jeito. Aos poucos, os associados famosos foram migrando para o litoral. A Tânia montou casa em Torres, o Pinheirinho andou por lá lançando um livro, descuidou-se e acabou comprando apartamento. Jesus Iglesias chegou a ser eleito síndico de seu prédio na praia, o Professor Ruy rendeu-se à vontade dos netos e aos encantos de Garopaba, só não vai se o futebol obriga.
Por aqui, em valente resistência, mantinham-se Clovis Duarte, cuidando do saudoso Câmera 2, um advogado amigo nosso que não veraneava porque sua sogra – argentina – iria junto, este colunista e sabe Deus mais quem. Em seguida caíram os derradeiros bastiões: o advogado construiu uma casa tão grande  no litoral que não encontra a sogra desde dezembro, quando levou comida a ela pela última vez; Clovis anda de praia em praia, filhinho de dez anos pela mão à guisa de salvo-conduto.
Não sei quantos ainda somos. Sei que não somos muitos, todos orgulhosos veranistas de Porto Alegre. Sei que os bares da moda sempre têm lugar, que aqui ainda restam mulheres bonitas e bronzeadas – embora insistam em não andar de biquíni no Parcão –, que o trânsito flui facilmente em qualquer horário, que aos domingos se pode atravessar a 24 de outubro sem olhar para os lados.
E que tudo isso é bom demais.

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